1- Como é ser Radiologista de Intervenção em Portugal?


O panorama da Radiologia de Intervenção (RI) em Portugal, à semelhança do resto do Mundo, está em constante mudança. Até há 20 anos atrás existiam apenas 4 a 5 individualidades a nível nacional com competências nas diversas áreas vasculares e não vasculares da Radiologia de Intervenção. A capacidade formativa era escassa e as saídas profissionais pouco certas. Para termos uma ideia, quando eu era interno, tive de estagiar 8 meses em Espanha para aprender diversas técnicas. À minha semelhança, muitos dos meus colegas da minha geração tiveram, também, de estagiar no estrangeiro para aprofundarem os conhecimentos técnicos nesta área. Hoje em dia já existem diversos centros em Portugal com capacidade formativa na área, com recursos humanos suficientes para garantir a formação dos internos de Radiologia interessados em Radiologia de Intervenção. Os internos de Radiologia podem ir estagiar fora de Portugal, mas já vão com muito mais competências e conhecimentos de Radiologia de Intervenção obtidos em estágios em Portugal. Muitos internos, inclusive, diferenciam-se actualmente em Radiologia de Intervenção sem ter de ir estagiar no estrangeiro. Este aumento de capacidade formativa traduz-se naturalmente num contínuo aumento de Radiologistas diferenciados em Radiologia de Intervenção. Este aumento de recursos humanos é essencial pois vem dar resposta a um contínuo aumento das necessidades hospitalares em Radiologia de Intervenção. As potencialidades e mais-valias da Radiologia de Intervenção têm vindo a ser cada vez mais conhecidas pelos colegas das outras especialidades. Quando eu entrei para Radiologia, Radiologia de Intervenção era igual a três ou cinco nomes espalhados por Portugal e conhecidos apenas por alguns colegas. Hoje em dia, as necessidades hospitalares superaram a ignorância, e as potencialidades da Radiologia de Intervenção já não passam despercebidas para as outras especialidades médicas.


2- Em Portugal, de que forma as restantes especialidades olham para estas novas terapêuticas minimamente invasivas? Considera que já são oferecidas como alternativas terapêuticas ou, pelo contrário, continuam desconhecidas à maioria dos clínicos?


Dependendo da especialidade médica em questão existem várias formas de olhar para o trabalho realizado pela Radiologia de Intervenção:
1- Somos fundamentais e parte integrante em equipes multidisciplinares, oferecendo alternativas terapêuticas minimamente invasivas, que podem complementar ou substituir a cirurgia convencional;
2 – Os tratamentos que realizamos não são seguros ou eficazes e não estão justificados – apenas experimentais;
3 – Os tratamentos que realizamos são excelentes, mas devem ser feitos por outras especialidades médicas.
Existe um ditado em Radiologia de Intervenção: “há 40 anos a inventar tratamentos para as outras especialidades”. Ou seja, numa fase inicial tenta-se negar a mais-valia de um tratamento inovador. Mais tarde, quando esse valor é óbvio, as outras especialidades passam a considerar que é um tratamento que deve ser realizado por eles. Seja como for, é uma especialidade que está sempre na vanguarda da Medicina e naturalmente predisposta à investigação médica; em constante mudança e adaptação. Esta é uma das características mais interessantes! Infelizmente ainda existem muitos colegas que não têm opinião formada relativamente aos tratamentos que realizamos uma vez que desconhecem por completo a Radiologia de Intervenção. É nossa obrigação continuar a implementar novos tratamentos, mantê-los debaixo da alçada da Radiologia de Intervenção e dar a conhecer as potencialidades da Radiologia de Intervenção a todas as diferentes especialidades médicas.


3- Nos EUA a RI é uma especialidade autónoma, e inclusive é das especialidades mais procuradas pelos internos. Outros países parecem estar a querer acompanhar esta tendência. Acha que em Portugal seria uma mais valia a criação desta nova especialidade?


Sim, nos EUA a Radiologia de Intervenção é uma especialidade autónoma desde 2012, com internato próprio, mas também com a hipótese de se poder diferenciar em Radiologia de Intervenção durante a especialidade de Radiologia. No Reino Unido, no ano passado foi feita uma votação e também foi decidido avançar para o estatuto de especialidade autónoma. Não é difícil perceber porque é que a Radiologia de Intervenção é uma das especialidades mais pretendidas nos EUA: o trabalho realizado é aliciante, inovador, divertido, bem pago e com boas perspectivas de emprego. O mesmo se passa no Reino Unido. No nosso País, infelizmente, ainda estamos uma década ou duas atrás na divulgação e implementação da Radiologia de Intervenção dentro da comunidade médica. Nos EUA ou Reino Unido é impensável abrir um Hospital sem ter um serviço de Radiologia de Intervenção com três a cinco radiologistas de Intervenção diferenciados. Isto independentemente de estar localizado numa grande cidade ou à


Em Portugal, as administrações hospitalares e o resto da comunidade médica ainda desconhecem ou não querem reconhecer a mais-valia da Radiologia de intervenção.


periferia. Em Portugal, as administrações hospitalares e o resto da comunidade médica ainda desconhecem ou não querem reconhecer a mais-valia da Radiologia de Intervenção. É nossa função divulgar todas as potencialidades da Radiologia de Intervenção dentro da comunidade médica e administrações hospitalares, de forma a aumentar a necessidade de serviços que justifiquem a contratação de mais especialistas em Radiologia de Intervenção. Só terá lógica criar a especialidade de Radiologia de Intervenção em Portugal quando estiver bem estabelecida essa necessidade institucional de recursos humanos diferenciados. Para já, temos uma proposta de criação da subespecialidade de Radiologia de Intervenção dentro da Radiologia enviada pela Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (SPRMN) ao Colégio da Radiologia da Ordem dos Médicos desde Fevereiro de 2018 e que ainda não obteve qualquer reconhecimento ou resposta.


No nosso País, infelizmente, ainda estamos uma década ou duas atrás na divulgação e implementação da Radiologia de Intervenção dentro da comunidade médica.


4- O que reserva o futuro à Radiologia de Intervenção?


Para compreender o futuro temos de olhar para o nosso passado, raízes e percurso feito. A Radiologia de Intervenção começou nos anos 60/70, ou seja, tem aproximadamente 50 anos. Tem estado em constante mutação e adaptação à Medicina Moderna e tem ajudado a inovar dentro das Ciências Médicas. Se tivermos em conta que há 40 anos atrás a Radiologia de Intervenção era sinónimo de 5 a 10 individualidades mundiais com uma apetência para a inovação e vistos como “malucos” pelo resto da comunidade médica – onde está hoje? Cresceu ao ponto de ser uma especialidade autónoma em 2 dos mais importantes países com programa de formação próprio em quase todos os países Europeus, Americanos, Asiáticos e na Oceania.


(…) a CIRSE, pertence à ESR, ocupava um modesto escritório num dos pisos da sede da ESR em Viena. Actualmente ocupa 2 pisos inteiros e mais que quadriplicou os recursos humanos a trabalhar em exclusividade para a CIRSE.


Basta olhar para esta curva ascendente para perceber que se trata de uma área da Medicina em expansão e com perspectivas risonhas. Para terem uma ideia mais física e concreta, a CIRSE (Sociedade Europeia de Radiologia de Intervenção – https://www.cirse.org/), pertence à ESR (Sociedade Europeia de Radiologia) e ocupava um modesto escritório num dos pisos da sede da ESR em Viena. Actualmente ocupa 2 pisos inteiros e mais que quadriplicou os recursos humanos a trabalhar em exclusividade para a CIRSE. O Congresso anual da CIRSE, tem mais de 7000 inscritos e adquiriu proporções gigantescas. Ocorre em Portugal a cada 3 anos, sendo uma excelente oportunidade educativa/formativa para os internos de Radiologia e estudantes de Medicina. Em Portugal, o Núcleo de Radiologia de Intervenção da SPRMN (NURIP) tem vindo a desenvolver várias sessões de formação e divulgação em Radiologia de Intervenção pelos diferentes Hospitais. Estivemos recentemente em Vila Real, iremos a Coimbra a 31 de Janeiro (ver website da SPRMN – https://www.sprmn.pt/) e teremos mais duas sessões no Curry Cabral (29 de Maio) e Vila Nova de Gaia (13 de Novembro). O NURIP irá igualmente assegurar um módulo da escola da SPRMN em Radiologia de Intervenção nos últimos meses de 2020 (data ainda a aguardar confirmação).


5- Por último, que conselhos daria a um interno que se pretenda diferenciar em RI?


Como diria a Élia Coimbra – alistem-se! Ou seja, falem com as pessoas, inscrevam-se e participem nestas atividades realizadas pelo NURIP, SPRMN e CIRSE! Para os especialistas, recomendamos a inscrição na APRI – Associação Portuguesa de Radiologia de Intervenção (http://apri.org.pt/) que lutará pelos interesses da Radiologia de Intervenção. Todos nós estamos acessíveis em diferentes hospitais esp(a/e)lhados por todo o país: desde Vila Real, Porto, Coimbra, Lisboa, entre outros. Vejam a realidade, o dia-a-dia da Radiologia de Intervenção e depois tentem perceber se é isso que querem. Muitas pessoas embarcam no sonho de Radiologia de Intervenção, com uma visão utópica de ir realizar procedimentos diferenciados, espectaculares e que podem salvar muitas vidas… tudo isso é verdade, mas tem custos!


Muitas pessoas embarcam no sonho de Radiologia de Intervenção, com uma visão utópica de ir realizar procedimentos diferenciados, espectaculares e que podem salvar muitas vidas… tudo isso é verdade, mas tem custos!


Sobrecarga emocional e física; trata-se de um trabalho muito desgastante, sob elevada pressão, e que requer uma disponibilidade constante, comum à maioria das especialidades médicas, mas menos apetecível dentro da comunidade da Radiologia. Ou seja, tem de haver muito “amor à camisola”, pois trata-se de uma vida muito mais “dura” que a da Radiologia de Diagnóstico. A meu ver, se houver, de facto, uma paixão pelo trabalho que se faz, as questões remuneratórias virão depois. Não nego que, actualmente, as saídas profissionais são incomparavelmente mais favoráveis à Radiologia Diagnóstica do que à Radiologia de Intervenção. Mas quem sabe; pode ser que os pratos da balança se venham a inverter nos próximos 30 anos. Espero na altura estar na minha reforma, mas ainda vivo (cheio de netos) para poder deliciar-me com essa “nova“ realidade (nada virtual ou artificial…).


Paulo Santos Correia


Fonte: Newsletter Comissão Nacional de Internos de Radiologia